Eis um espaço de partilha para gente que se interessa por teatro e outras artes. Podemos e devemos partilhar: fotos, reflexões, críticas, notícias diversas, ou actividades. Inclui endereços para downloads. O Importante é que cada um venha até aqui dar o seu contributo. Colabore enviando o seu texto ou imagem para todomundoeumpalco@gmail.com

quarta-feira, março 22, 2006

DIA DO TEATRO DE AMADORES


MENSAGEM

Os dias que correm são cada vez mais casmurros, porque estão vazios de sentimentos, de afectos e de valores, de tal modo que, pela raridade, já olhamos como heróis os que se dedicam às causas comuns. Agigantam-se a intriga e a obsessão humanas na desenfreada busca do bem-estar físico e material que, desfeita a redundância, materializa falsos paraísos de posse e de domínio. Cresce o individualismo e o consumismo. Dedicam-se dias a todos os devaneios possíveis e imaginários com o intuito do sucesso (precário). Impera o jogo da sedução nos pregões que anunciam as mais fantásticas qualidades atribuídas aos produtos e apetrechos de quotidiana banalidade e dispensáveis à felicidade, pois nada acrescentam à interioridade humana.

Apesar desta anestesiante realidade continuam a existir os lúcidos amantes. Aqueles que se dedicam de peito aberto a dar respostas aos apelos da consciência e da sociedade. Aqueles que, como escrevia Florbela Espanca, querem “…amar perdidamente! Amar só por amar! Aqui…além… Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…”, e todas as coisas. Que querem embarcar para o “Areeiro”, ou outros destinos – desde que seja para o sonho. Todos os caminhos do mundo estão à sua disposição.
Entre esses amantes, estamos nós, os amadores de teatro.

Nos tempos de intenso labor cultural, pós 25 de Abril, os amadores, com forte presença e implementação no país, representados pela sua associação de então – a APTA, escolheram para si um dia – o 21 de Março. Uma data sem devaneios, própria para celebrar a extensa obra realizada, umas vezes, de forma mais congregada, outras, mais dispersa, porém sempre participada e valiosa. Uma data que acima de tudo prepara a renovação e anuncia a Primavera – o desabrochar de novas ideias, e o surgimento de novos projectos e de redobradas ambições artísticas.

Hoje, as razões para comemorar o 21 de Março como Dia do Teatro de Amadores, são mais fortes. O mundo mudou. Neste início de século, a concorrência é imensa e agressiva. Proliferam as ofertas sedutoras à medida de todos os gostos e de todos os bolsos.
Apesar de tudo, o movimento do teatro de amadores persiste. Continua com o mesmo vigor e encanto de sempre, compreendendo e adaptando-se às exigências dos tempos que correm.
Os objectivos permanecem iguais: usar da melhor forma os sentimentos e a vontade de reencontrar os outros. Aceitar os desafios com os olhos postos na comunidade que nos rodeia – é para ela o nosso principal esforço. Encontrar prazer no que se faz.
Se os objectivos são os mesmos, também o método não se alterou: continua a deduzir-se como força motora o querer e o crer. Confirma-se a necessidade de vencer os egoísmos e de saber enfrentar as dificuldades. A nossa força esconde-se por detrás da força do grupo e do seu trabalho colectivo, em que o prémio de um, será o prémio de todos. Nunca buscar a fama, nem compensações de qualquer tipo, a não ser aquelas que são parte da alma.
É isso que temos feito.
Não nos faltam argumentos e alegria para promover a festa.
Celebremos, então, em 21 de Março, tudo quanto somos como amadores, e o que queremos continuar a ser, certos de que o mundo reflectirá, em algum momento, os sinais positivos do nosso esforço, do nosso compromisso e do nosso encantamento.

Porfírio Lopes

terça-feira, março 21, 2006

DIA DO TEATRO ASSOCIATIVO


MENSAGEM

Encontrar numa folha em branco as letras certas que se transformem em palavras capazes de definirem a importância do chamado teatro de amadores em Portugal, não é fácil.
Para que essas palavras se transformem em frases capazes de definirem tudo o que nos vai na alma, ainda é mais difícil. Não por incapacidade da nossa língua, mas porque estamos a procurar falar de emoções individuais que se transformam em manifestações colectivas de prazer e felicidade.
Falar dum movimento artístico que de Norte a Sul mantém permanentemente uma actividade diária de produção cultural num meio dum mar de contradições, emoções, angústias, é falar da nossa história popular.

Não daquela das revistas cor – de - rosa, ou dos circos e companhias de gente, que faz da futilidade formas de anestesia dum país adiado.
Falar deste movimento teatral é falar de milhares de homens e mulheres que nas suas comunidades, ou nos grandes centros urbanos, ousam sonhar e fazem das dificuldades a sua matéria - prima de construção artística.

No tecido cultural Português o teatro associativo é uma realidade tão rica que em qualquer país civilizado mereceria o carinho, o agradecimento e o estímulo daqueles que através do voto se transformam em gerentes das nossas vidas.
Num País exigente hoje as nossas televisões não ocupariam as manhãs a explorar duma forma criminosa os dramas pessoais de muitos dos nossos cidadãos.
Hoje as televisões abririam com os rostos iluminados e contagiantes dos amantes do teatro. Faces anónimas que apesar de tudo continuam a lutar, sorrindo, sorrindo sempre, com a convicção de quem sabe que este é um dos caminhos da felicidade.
Encontrar um dia anual para reflexão sobre este movimento sempre foi uma preocupação de algumas organizações que em determinados períodos procuraram organizar e representar este imenso grupo de amantes e enamorados pela arte teatral.
Com o esvaziar da APTA, antiga Associação Portuguesa de Teatro de Amadores, a ideia mais original, interessante e talvez mais definidora da verdadeira identidade desta forma teatral, surgiu pela Companhia Teatral de Ramalde e por essa forma única de encontro teatral que é o Amasporto.
O Dia do Teatro Associativo é por isso um dia que importa colocar nas nossas agendas e espalhar por todo o País.
Unir este imenso movimento em torno de estruturas representativas, é uma tarefa difícil, pela diversidade de propostas dos Grupos, pelas suas diversas formas de organização, pela formação artística variada, pelos meios disponíveis, muitas vezes resultados do bom ou mau humor dos poderes locais.
O caminho mais curto para uma possível unidade de objectivos, é partir pela estrada dos Companheiros de Ramalde para que um dia nos possamos encontrar todos no mesmo cruzamento.
Organizar encontros como o Amasporto, encontros de afectos e de solidariedade, encontros de valorização e agradecimento a homens e mulheres do teatro, que se espalhem como o sangue por todas as veias artísticas do país. Estes encontros de afectos irão aproximar cada vez mais Grupos.
Pequenas acções de cada vez, consolidando-as e diversificando-as, estreitando cada vez mais laços, mais abraços, mais de desejos de reencontro.
Não vejo hoje outro caminho com o individualismo instalado em todos os sectores da Sociedade.
Façamos do dia do teatro associativo, uma verdadeira associação de ideias e propostas.
Mesmo que seja um simples passo, mesmo que este ainda seja simbólico, mesmo que este não seja notícia de primeira página, mesmo que não haja manifestações de rua, mesmo que nos sintamos pessimistas, estes primeiros passos são fundamentais, porque é o inicio dum andar seguro e com futuro.

A todos os companheiros do Teatro Associativo importa saudar, importa apelar para que continuem a ousar, importa pedir para que não desistam.

Continuemos a fazer de cada texto, de cada espectáculo, de cada desafio, de cada contrariedade, o estímulo suficiente que contagie cada um de nós.
O futuro teatral passa por aqui, por estes últimos resistentes do sonho e da utopia.


João Coutinho
Companhia de Teatro do Ribatejo

DIA MUNDIAL DO TEATRO



MENSAGEM INTERNACIONAL DO DIA MUNDIAL DO TEATRO 2006
UM RAIO DE ESPERANÇA
por Víctor Hugo Rascón-Banda
Todos os dias deveriam ser Dias Mundiais do Teatro, porque nestes 20 séculos, a chama do teatro tem ardido constantemente nalgum canto do mundo.Ao teatro, sempre se decretou a morte, sobretudo com o aparecimento do cinema, da televisão e, agora, dos meios digitais.A tecnologia invadiu os cenários e aniquilou a dimensão humana, tentou-se um teatro plástico, próximo da pintura em movimento, que substituiu a palavra. Houve obras sem palavras, ou sem luz ou sem actores, somente máquinas e bonecos numa instalação com múltiplos jogos de luzes. A tecnologia tentou converter o teatro em fogo de artifício ou em espectáculo de feira.Hoje assistimos ao regresso do actor em frente do espectador. Hoje presenciamos o retorno da palavra ao palco.O teatro renunciou à comunicação massiva e reconheceu os seus próprios limites que lhe impõem a presença de dois seres frente a frente comunicando sentimentos, emoções, sonhos e esperanças. A arte cénica está a deixar de contar histórias para debater ideias.O teatro comove, ilumina, incomoda, perturba, exalta, revela, provoca, transgride. É uma conversa partilhada com a sociedade. O teatro é a primeira das artes que se confronta com o nada, as sombras e o silêncio para que surjam a palavra, o movimento, as luzes e a vida.O teatro é um ser vivo que se consome a si mesmo enquanto se produz, mas constantemente renasce das cinzas. É uma comunicação mágica na qual cada pessoa dá e recebe algo que a transforma.O teatro reflecte a angústia existencial do Homem e revela a condição humana. Através do teatro, não falam os seus criadores, mas a sociedade do seu tempo.O teatro tem inimigos visíveis, a ausência de educação artística na infância, que impede a sua descoberta e o seu usufruto; a pobreza que invade o mundo, afastando os espectadores, e a indiferença e o desprezo dos governos que deviam promovê-lo.No teatro falavam os deuses e os homens, mas agora o homem fala para outros homens. Para isso o teatro tem de ser maior e melhor que a própria vida. O teatro é um acto de fé no valor de uma palavra sensata num mundo demente. É um acto de fé nos seres humanos que são responsáveis pelo seu destino.É necessário viver o teatro para entender o que se passa, para transmitir a dor que está no ar, mas também para vislumbrar um raio de esperança no caos e pesadelo quotidianos.Longa vida aos oficiantes do rito teatral! Viva o teatro!
Tradução: Instituto das Artes - Gabinete de Teatro e Gabinete de Comunicação
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O Dia Mundial do Teatro foi criado em 1961 pelo Instituto Internacional do Teatro (ITI) e celebra-se anualmente a 27 de Março nos Centros ITI e na comunidade teatral internacional. Organizam-se diversos eventos nacionais e internacionais para assinalar a ocasião. Um dos mais importantes é a circulação da Mensagem Internacional, tradicionalmente escrita por uma personalidade do teatro de dimensão mundial a convite do Instituto Internacional do Teatro.www.iti-worldwide.org
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Víctor Hugo Rascón Banda
Nasceu em 1948 em Uruáchic, uma cidade mineira do norte do México. Saiu muito cedo da sua pequena localidade para continuar os seus estudos de advocacia. Em 1979 escreveu a sua primeira obra de teatro Voces en el umbral. Los ilegales, a sua primeira peça encenada, marcaria o início de uma carreira assinalada por êxitos de público, assim como o reconhecimento crítico e académico. A sua obra dramática, composta por cerca de meia centena de textos, resulta num espectro significativo que dá conta da complexidade do ser humano e da sua relação com a envolvente social, pois é a sociedade do seu tempo que fala através do criador, assinala Víctor Hugo. Para ele, o teatro é entendido como um contentor dos sonhos e dos pesadelos de toda uma época. A sua obra dramática é uma das mais encenadas e editadas no panorama nacional mexicano.Víctor Hugo já recebeu vários prémios nacionais e internacionais pelas suas obras, tais como: Ramón López Velarde 1979, Teatro Nuestra América 1981, Juan Ruiz de Alarcón 1993 e Rodolfo Usigli 1993. Recentemente recebeu a medalha “Xavier Villaurrutia”, em reconhecimento da sua carreira.É presidente da Sociedad General de Escritores de México, Assessor do Consejo Nacional para la Cultura y las Artes, Tesoureiro da Academia de Artes y Ciencias Cinematográficas, Presidente da Federación de Sociedades Autorales e Vice-presidente da Confederación Internacional de Sociedades de Autores y Compositores.Adaptado do texto de Rocío Galicia - Centro Nacional de Investigación Teatral “Rodolfo Usigli”.
Tradução: Instituto das Artes - Gabinete de Teatro e Gabinete de Comunicação

sábado, março 11, 2006

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segunda-feira, fevereiro 20, 2006

ALUNOS DE TEATRO DA ESAP EM ALIJÓ



Os alunos do Curso Superior de Teatro subiram ao Palco do Teatro Auditório Municipal de Alijó na passada sexta-feira, 13 de Janeiro.
Os alunos do 1.º Ano do Curso Superior de Teatro da ESAP levaram à cena a peça O Fabricante de Máscaras, da autoria do famoso mimo francês Marcel Marceau, numa bela encenção de Roberto Merino, encenador, professor e director de curso da ESAP.
O espectáculo adquiriu uma beleza surpreendente: a gestualidade dos actores em palco, aliada às máscaras e ao belíssimo desenho de luzes proporcionou momentos de grande beleza estética.
Espectáculo de características pouco usuais entre nós, O Fabricante de Máscaras revela como a comunicação ultrapassa as meras barreiras da língua quando convergem em cena outras linguagens, também elas dotadas da expressividade necessária para o entendimento entre os homens. Aliás, há muito da matriz original do teatro neste espectáculo.
Segundo a crítica publicada localmente, aquando da apresentação, «esta forma diferente de representação surpreendeu positivamente os espectadores, que se mostraram agradados por assistirem a uma peça sem diálogos, onde a mensagem se fez passar pelos movimentos dos actores e pelos sons que encheram o palco.Foi sem dúvida um bom exercício, prometendo uma grande carreira para estes jovens actores que agora iniciaram o Curso Superior de Teatro, demonstrando também que esta invulgar abordagem da arte do palco passa bem para públicos do interior, também sensíveis a esta forma de cultura».
Para nós, que diariamente acompanhamos estes alunos e a sua extrema dedicação ao teatro, é mais um motivo de grande satisfação e apenas lamentamos não possuir nenhuma imagem em arquivo para podermos ilustrar um ou outro dos maravilhosos momentos a que assistimos quando vimos o mesmo espectáculo no Teatro Sá da Bandeira.
Isto fica como alerta para futuras iniciativas, lembrando que será a ESAP a primeira interessada em difundir estes belos trabalhos dos seus alunos.
Que este alerta não caia em «saco roto» e sirva ainda para lembrar que tem havido outras interessantes iniciativas como o espectáculo Shakespeare Vagabundo ou o Hamlet, peça representada pelos alunos do mesmo curso de Teatro da ESAP no FITEI de 2005 e que mereceu os maiores encómios do crítico Carlos Porto.
Na época da comunicação e dos media, importa que não deixemos passar em silêncio estes factos que podem ser bem a base do futuro do teatro em Portugal.
FERNANDO PEIXOTO

domingo, fevereiro 19, 2006

TEATRO

Publicado em http://www.locurapoetica.com/teatro/teatro.htm

Para Marcelo Romano, con la admiración del autor
Hacer teatro, no es
dejar la vida correr,
cruzar los brazos, vivir,
dejar correr el marfíl;
y si a veces se dice sí,
muchas veces se dice no.
Aunque le cueste al actor
mantener el derecho al pan,
no duda en decir NO
cuando un NO es la verdad,
y mantiene la liberdad
de decir que no, que si,
por cuestión de dignidad,
porque el Teatro es así.
Porque el Teatro es la vida
y la verdad es su norte,
el actor desafía la suerte
y la mentira es vencida.
Pero en la lucha desigual
entre la verdad y la mentira,
si en unos desarma la ira,
en otros refuerza el Amor,
y en esta dicotomia
que es el Teatro, al final,
vence el Bien, que es la Verdad,
cae la Mentira, que es el Mal.
Y la máscara de la ilusión
com que el hombre se disfraza
queda postrada en el suelo
ante el humor de una farsa.
Siempre así fue y será
(es esa nuestra certeza)
porque el Teatro es la mañana
que dá vida a la naturaleza,
porque el Teatro es la alegría
de saber que vale la pena
transferir el día a día
para el amago de la Escena.
Y repleto de esperanza,
sereno, firme y seguro,
el actor es un niño
que cree en el futuro.
Y hace de la creencia un Amor
tan largo, grande y profundo,
que aun pobre, el Actor,
es el más rico del mundo!

FERNANDO PEIXOTO
Portugal

(Fernando Peixoto es Profesor de História del Teatro en ESAP - Escuela Superior Artística de Porto.
En la Universidad de Porto es investigador de História Contemporanea en el área de Política Institucional )

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

NOVIDADES


A
COMPANHIA TEATRAL DE RAMALDE
está disponível a partir do mês de Março, para levar este espectáculo em itinerância pelo País.
sua última produção, estreou no âmbito do AMASPORTO 2005

“A VIDA É UMA PEÇA DE TEATRO QUE NÃO PERMITE ENSAIOS. DANCE, CHORE, RIA, E VIVA INTENSAMENTE ANTES QUE A CORTINA SE FECHE E A PEÇA TERMINE SEM APLAUSOS”
(Charlie Chaplin)

NOVOS TEXTOS TEATRAIS


Amigos:
Já podem aceder a novos textos teatrais, procurando no site abaixo:

Tres nuevos textos teatrales en www.celcit.org.ar Tres nuevos textos teatrales, de lo mejor de la dramaturgia iberoamericana contemporánea, a tu disposición en la sección Publicaciones/Dramática Latinoamericana de www.celcit.org.ar ; desde allí podés bajarlos a tu PC, sin cargo alguno.Ya son más de 200 los textos publicados, procedentes de Argentina, Bolivia, Brasil, Chile, Colombia, Costa Rica, España, Francia, México, Perú, Portugal, Puerto Rico, Uruguay, Venezuela... Los nuevos textos son:216. Agonía. Luis Miguel González Cruz (España)217. Caperucita a medianoche. Juan Martins (Venezuela)218. La buena vida. Ricardo Prieto (Uruguay)

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

O TEATRO NO BRASIL: de Anchieta a Manuel Botelho de Oliveira



A Companhia de Jesus é fundada por Inácio de Loyola em 1534. O seu principal objectivo é o de estender a fé cristã entre os povos do mundo a que as naus portuguesas e espanholas iam aportando. Além disso, em Portugal e Espanha procuravam controlar os estabelecimentos de ensino na mira de formarem quadros devidamente preparados para as tarefas da missionação.
O classicismo impusera múltiplos ditames culturais e estéticos e a sua influência é tão saliente que a produção literária e científica europeia faz-se maioritariamente em latim. O teatro, sobretudo entre as elites, adopta igualmente esta língua, como acontece em Portugal, quando o Colégio das Artes, em Coimbra, cai sob a alçada dos Jesuítas. Difunde-se a tragédia latina nos colégios sob o seu domínio em Évora, Coimbra, Santarém, Lisboa, Braga e Bragança, tanto mais que a Ratio Studiorum impunha aos alunos que falassem entre si e com os mestres sempre na língua de Virgílio, a mesma em que se representavam as tragédias e que servia como veículo de comunicação nas aulas entre professores e alunos.
A tragédia e a tragicomédia religiosa neolatinas assumem por vezes proporções de grande qualidade estética e literária, como o revela Claude-Henri Frèches a propósito da obra do padre jesuíta Luís da Cruz, que, entre outras, escreveu as tragicomédias Prodigus, Vita Humana, Sedecias, Manasses Restitutas, etc., e que é considerado por alguns estudiosos como um dos dramaturgos portugueses que melhor dominou a produção dramática em Latim.
A expansão comercial e de conquista, rumando aos portos do Oriente ou da América do Sul, transportava simultaneamente a espada e a cruz. Guerreiros, comerciantes e Jesuítas formavam o trio que partia à conquista de novos territórios, de novos mercados, mas também na busca incansável da conversão das almas para a fé cristã.
Grandes cultores do teatro, de resto recomendado pelo próprio Loyola nos seus Exercícios Espirituais, os Jesuítas foram os principais responsáveis pela sua difusão nas longínquas paragens onde aportavam as naus quinhentistas. Levaram-no com eles na Expansão, representaram-no nos mais recônditos lugares do mundo onde chegaram, nos séculos XVI e XVII, do Japão ao Brasil. E se nem sempre se preocupavam com o facto de os indígenas não perceberem a língua, o certo é que o rigor das encenações, a exuberância dos figurinos, a espectacularidade dos cenários, logravam, mesmo assim, tornar compreensíveis as mensagens que pretendiam fazer passar: tratava-se de temas religiosos tornados acessíveis através dos diversos recursos que utilizavam na forma espectacular como se apresentavam. Assim se percebe que orientais e ameríndios ficassem fascinados com as suas representações, mesmo quando não percebiam o que diziam.
Quinze anos após a sua criação, desembarcam no Brasil os primeiros jesuítas chefiados pelo padre Manuel da Nóbrega. Vinham incumbidos pelo monarca D. João III de congregarem as populações autóctones em aldeamentos, uma forma de os fixar num dado território e assim poderem exercer sobre eles um acompanhamento mais próximo que permitisse a sua catequização.
A terceira equipa de missionários jesuítas chegou ao Brasil em 1553. Integrava-a um jovem espanhol, de 19 anos de idade, chamado José de Anchieta, que entrara aos 14 para o Colégio das Artes, em Coimbra, onde por certo terá assistido a representações de peças vicentinas, como se deduz das influências que demonstram as suas produções dramáticas.
O jovem Anchieta possuía já uma sólida formação cultural que aproveitava para verter nos seus trabalhos poéticos e epistolográficos, na sua sermonária e nos seus textos dramáticos.
Instalado no que mais tarde viria a ser S. Paulo, Anchieta bem cedo percebeu que pela via da representação teatral poderia muito mais facilmente atingir os seus objectivos de catequização, não se limitando aos povos indígenas, mas estendendo-a igualmente àqueles que por qualquer razão, incluindo o degredo, se encontravam na colónia. E deitou mãos à tarefa de redigir autos e outros textos dramáticos, utilizando uma mescla linguística de latim, português, castelhano e dialecto local que aprendera com o intuito de poder chegar mais perto e com maior eficácia à evangelização das populações autóctones.
As suas produções dramáticas beberam na tradição aprendida na Península Ibérica com os mistérios medievais, as moralidades, as representações das vidas de santos, como ponto de partida para fornecer os exemplos de conduta que permitiriam conduzir ao fortalecimento da fé e à salvação.
As efemérides religiosas, as chegadas de relíquias e as procissões que se organizavam constituíam o pretexto para as representações que chegavam mesmo a integrar actores índios no elenco, com os adultos interpretando líderes locais que se opunham à ocupação e as crianças encarnando personagens angélicas, tudo servido por uma profusão de efeitos cénicos verdadeiramente exuberantes, deslumbrando os olhos extasiados dos ingénuos espectadores.
As representações dos autos decorriam em regra nas aldeias indígenas e a elas assistiam tanto os índios já convertidos como aqueles que estavam ainda por evangelizar. Era sobretudo aqui que se recorria aos textos que integravam os dialectos. Havia ainda outras representações, destinadas ao público em geral e que se realizavam nas praças das cidades. Por vezes desenvolviam-se mesmo ao longo de um determinado percurso por onde se estendia o cortejo que transportava as imagens ou as relíquias sagradas.
Os textos, sob a forma de Autos, misturavam episódios cómicos e trágicos, conforme a intenção da mensagem que se pretendia transmitir e tanto utilizava personagens alegóricas (a «Vila» ou o «Governo», por exemplo), como figuras simbólicas (a «Ingratidão», o «Mundo») ou mesmo personagens históricas e sagradas.
Crê-se que a primeira obra de José de Anchieta terá sido representada pelo Natal de 1561 e era denominada Auto da Pregação Universal. O título advinha precisamente do facto de ser escrita em português, castelhano e tupi, incluindo a variante tupinambá.
Apesar da sua intensa actividade missionária e do empenhamento como medianeiro no conflito que opunha os Portugueses aos invasores franceses e aos índios tamoios seus aliados (Anchieta chegou mesmo a estar refém destes índios), a sua produção literária não pára e compõe de memória Da Bem Aventurada Virgem Maria, em 1563, um poema que só mais tarde viria a passar a escrito. Nesse mesmo ano é publicada, em Coimbra, a obra em latim intitulada Gestis Mendi de Saa. O seu labor não conhece paragens e o seu estudo não cessa. Estuda teologia e em 1567 é finalmente ordenado sacerdote.
Em 1577, representa-se em S. Vicente o seu Auto de Santa Úrsula. Logo no ano seguinte é nomeado superior dos jesuítas e nessa qualidade inicia uma verdadeira peregrinação pela costa brasileira, acompanhando a actividade das missões religiosas e fundando povoações como Guaraparim, Reis Magos ou Reritiba, entre outras.
À medida que se ia deslocando, ia escrevendo e organizando as suas representações nessas localidades. Mas é sobretudo quando se vê liberto da responsabilidade de superior provincial que a sua produção dramática conhece um maior impulso.
Dedica-se igualmente ao labor histórico, consumado em 1584 através da Informação do Brasil e de suas Capitanias.
No ano de 1587, no adro da capela de S. Lourenço, actual cidade de Niterói, representa-se o seu Auto de S. Lourenço, em homenagem ao santo martirizado pelos Romanos. O auto, em cinco actos, pretende homenagear o padroeiro local, mas vai mais longe. No primeiro acto descreve o martírio do santo às mãos dos Romanos. Mas no acto seguinte a intenção é já a de denunciar as maldades praticadas por demónios que visam destruir a aldeia, intento que irá ser contrariado pelos esforços conjuntos de S. Lourenço, de S. Sebastião e do Anjo da Guarda. E não é por mero acaso que os nomes dos demónios são precisamente os de chefes índios pertencentes à Confederação dos Tamoios, aliados dos Franceses e mortos no decurso das lutas que os Portugueses travaram para suster as tentativas francesas de ocupação, na década de sessenta. A peça decorre ainda com os demónios já vencidos a serem convidados pelo anjo para torturarem os imperadores romanos Décio e Valeriano, culpados da morte de S. Lourenço. A tirania era assim castigada precisamente por quem antes colaborara com os próprios inimigos.
A peça, repleta de anacronismos mas também de alegorias, não deixa de ser interessante pelos múltiplos recursos de que se serve. A realidade local está presente tanto pela inclusão de indígenas na representação de algumas personagens, incluindo um grupo de crianças que no último acto executa uma dança de louvor a S. Lourenço, como pela utilização de diálogos e vocábulos em línguas diversas como o português e o castelhano (o bilinguismo dirigia-se aos colonos portugueses e aos muitos espanhóis que então se encontravam no Brasil), o guarani, o tupi e o tupinambá. O acompanhamento musical, as danças e o recurso à prática do sermão (pregado pelas personagens «Temor de Deus» e «Amor de Deus») convergem para enriquecer a representação, conferindo-lhe uma grande diversidade de ritmo, de colorido e de movimento que naturalmente prendiam a atenção dos espectadores.
Por volta de 1585, assiste-se à representação de um outro Auto na aldeia de Guaraparim, no Espírito Santo, integralmente escrito na chamada língua «brasílica», um misto de dialectos locais. Mais uma vez os demónios pretendem dominar a aldeia, buscando a cumplicidade de um índio de nome Pirataraca, já falecido. Mas a alma de Pirataraca permanece fiel à fé cristã e acaba sendo ajudada por um anjo, salvando-se assim a aldeia do ataque inimigo. A preocupação nesta, como noutras peças, não se restringia apenas à difusão da fé. O seu intento era ainda o de condenar práticas tradicionais que colidiam com os valores cristãos, como a poligamia, o fumo ou a antropofagia.
Além das obras mencionadas, Anchieta escreveu ainda outras como Na Vila de Vitória, uma peça cujo intento era o de justificar a legitimidade de Filipe II como rei de Portugal, ou Na Visitação de Santa Isabel, seu derradeiro texto.
Para Décio de Almeida Prado, historiador do teatro brasileiro, permanecem dúvidas sobre a autoria de algumas das peças atribuídas a Anchieta. Mas, decorridos mais de quatro séculos, tal dúvida não se afigura como algo de importante. O certo é que o espólio dramático que lhe é atribuído constitui sem dúvida o verdadeiro nascimento de um teatro feito no Brasil e especialmente destinado aos seus naturais.
Com 60 anos de idade é já um homem fatigado. Mesmo assim, no ano seguinte (1595) Coimbra publica a sua famosa Arte de Gramática da Língua mais Usada na Costa do Brasil.
Morre aos 63 anos de idade em Reritiba, no estado de Espírito Santo. O seu corpo foi a sepultar na cidade de Vitória, mobilizando um cortejo acompanhado por milhares de índios. Em sua memória, a cidade de Reritiba passou a denominar-se Anchieta, homenageando o missionário que João Paulo II beatificou em 1980.
Seria de esperar que o século XVII desse continuidade a esta produção teatral de tanta importância para a catequese jesuítica. Mas, se por um lado não surgiram homens vocacionados para esse género literário, há que reconhecer que as tarefas dos missionários eram agora bem mais necessárias na luta pela defesa dos índios contra os ataques sistemáticos que a exploração colonizadora desferia sobre as populações nativas.
A instabilidade social, militar e política do século XVII não era favorável ao desenvolvimento de actividades de cariz cultural. Um conjunto de lutas e de rebeliões, de guerras contra franceses e holandeses, de conflitos entre jesuítas e colonos, impediram que os homens da Companhia de Jesus pudessem dar continuidade à linha condutora de evangelização que caracterizara o século precedente. E o teatro jesuítico deixa, praticamente, de existir, sobrevivendo apenas em algumas manifestações quase exclusivamente confinadas ao interior dos colégios.
Sabe-se que esporadicamente, para celebrar algum evento cívico ou religioso mais significativo, se organizavam representações. Assim aconteceu em 1620, na Baía, com a representação de um Drama. Também se representavam comédias, como aconteceu no Rio de Janeiro, em 1641, para comemorar a Restauração da Independência de Portugal, mais tarde repetidas no Recife e no Maranhão, ou na Baía, em 1662, celebrando o casamento de Carlos II de Inglaterra com a princesa Catarina de Portugal.
Aquando da instalação da Província Franciscana da Imaculada Conceição no Rio de Janeiro, em 1678, terão ocorrido diversos festejos que integraram representações teatrais. Há ainda notícia da apresentação de um Auto de S. Francisco Xavier no Maranhão, em 1688.
Mas não haveria produção literária dramática no Brasil? É bem possível que alguns divertimentos parateatrais, ou mesmo representações de comédias tivessem sido criados por naturais da colónia. É provável que tal acontecesse dada a influência que o teatro espanhol assumiu no século XVII. E, por certo, o Brasil não estaria de todo imune a estas influências. Mas são muito escassos os registos disponíveis a este respeito.
Deste panorama sobressai o nome de Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711), um baiano culto e poliglota, cultor exímio do barroco então em voga, que em 1705 vê publicadas em Portugal (os prelos eram proibidos na colónia) poesias e duas obras dramáticas redigidas em castelhano e enformadas pelo estilo espanhol, da comédia de capa e espada, textos que, provavelmente, nunca chegaram a ser representados: Hay Amigo para Amigo e Amor, Engaños, y Zelos.
FERNANDO PEIXOTO - In Teatro-Enciclopédia Didacta.Agualva-Cacém, 2005

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

TEATRO OBRIGATÓRIO: A NOVA UTOPIA



DESCULPEM-ME INVADIR NOVAMENTE ESTE BLOG, MAS DESTA FEITA QUERO TRANSCREVER AQUI UM COMENTÁRIO SOBRE UM ESPECTÁCULO MEXICANO DE ENORME IMPORTÂNCIA. VAI EM CASTELHANO E FOI PUBLICADO NAS NOTÍCIAS DO CELCIT Nº 319 DE 10 DE FEVEREIRO DE 2006:
MÉXICO. Proponen la obligatoriedad del teatro como la nueva utopía
Estrenarán montaje en el Centro Cultural Helénico.Alguien pudiera imaginarse que la asistencia al teatro fuese obligatoria, así como las consecuencias que eso implicaría. Pues esta es la cuestión en la que se profundiza de manera ''irónica y crítica", en el montaje Teatro obligatorio, según comenta el creador escénico David Psalmon. La obra será estrenada el sábado 11 en el Centro Cultural Helénico. Basada en tres textos del dramaturgo alemán Valentin Ludwig Fey, conocido como Karl Valentin (1882-1946), la puesta en escena ''es muy divertida y profunda a la vez", indica Psalmon. Es un montaje ''que provoca una serie de preguntas sobre el teatro y el arte en general, así como su posición y porvenir en las sociedades llamadas modernas". Asimismo, ''se ponen de manifiesto cuestiones que se callan en la comunidad teatral, por lo que quizá -añade el director- no falten las reacciones de muchos a quienes no les gusta que se les toque". Valentin fue un dramaturgo cuyo talento lo ha convertido ''en un auténtico clásico del repertorio cómico y cabaretero alemán de los años 20 y 30. Es un verdadero precursor del teatro del absurdo, ya que logró mucho antes que Ionesco y Beckett, esa fusión de la comicidad y de la tragedia cotidiana". Este autor, explica David Psalmon, ''es en Europa un referente. Su humor fue muy vanguardista y tuvo una influencia muy fuerte sobre Brecht". HERRAMIENTA DE TRANSFORMACIÓN. Ahora Psalmon retoma y conjuga tres textos de Valentin para crear el montaje Teatro obligatorio. Uno es La salida al teatro y los otros son dos cartas; Carta a un director de un teatro, en la que con ironía y sarcasmo hace una incisiva crítica a las autoridades e instituciones culturales. ''Lo que hemos hecho es recontextualizar esa carta a la realidad mexicana". La otra es lo que Psalmon llama ''El manifiesto", el cual tiene que ver precisamente con el teatro obligatorio y que ''es presentado por vez primera en México". En ese texto, ''el autor sostiene que la única manera de salvar al teatro es haciéndolo obligatorio, lo cual podría parecer un chiste; sin embargo, si se reflexiona de manera más profunda y en el contexto de nuestras sociedades llamadas modernas, el asunto cobra otra dimensión". El propósito del montaje, concluye el creador escénico, ''es proponer -como expresa uno de los personajes de la obra- que el teatro obligatorio sea como la nueva utopía. Ella dice que la nueva revolución no se hará con las armas, sino con el teatro, como una herramienta de transformación política, económica y social". Con el auspicio del Patronato de la Industria Alemana para la Cultura y el segundo Festival Internacional de las Artes de Mérida, así como las actuaciones de Enrique Arreola, Norma Angélica y Madeleine Sierra, Teatro obligatorio se estrenará este sábado a las 20:30 horas en La Gruta, del Centro Cultural Helénico, en avenida Revolución 1500, San Angel. Carlos Paul. La Jornada. 8 de febrero de 2006.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

BABINE pelo Teatro Art'Imagem



“Um parvo houve por bem
Ir correr a Rússia a fundo
Para ver se via o mundo
E dar nas vistas também…”

Adaptado de um conto de Leon Tolstoi, o Teatro Art´ Imagem apresenta a sua última produção no aniversário dos seus 25 Anos de Actividade Teatral, no pequeno auditório do Teatro Municipal Rivoli.

Este Babine, o Parvo é parente de todos os parvos do mundo que partindo a procura do conhecimento sofrem duras penas pela conquista do saber. Irmão do Pedro Urdemales ou o Pedro das Malas-artes, acabará por conquistar a verdade e o respeito da família depois de passar por muitas peripécias, como o rapazinho dos irmãos Grimm que partindo a procura do medo conquista o amor da filha do rei e um balde de agua fria.

Espectáculo musical emoldurado pela transparência videográfica que inspirada em Chagall, marca cromaticamente a viagem por uma Rússia primeiro e mais tarde pela historia da URSS.

Para todas as idades, falado em português e com frases que se repetem em russo o espectáculo poderá fazer as delícias do público que se identificará com esta personagem singular, intrépida e aventureira sem medo dos perigos mas também com ânsia de voltar para casa.

Com dramaturgia e encenação de José Leitão que soube muito bem neste espectáculo misturar os diferentes recursos de uma equipa jovem de actores e artistas plásticos e musicais, Babine o Parvo se recomenda pelos seus méritos próprios como espectáculo característico e na senda de uma companhia que luta há 25 anos pela continuidade e dignificação do teatro na cidade do Porto, nunca esquecendo os compromissos culturais e estéticos como os compromissos com a actualidade e o mundo contemporâneo como ficou claro nos últimos espectáculo Ratos e Homens e Netzarim/ Palestina.

Para aqueles como eu que amamos o cinema com a mesma paixão do teatro, não pode deixar de ser comovedora a ultima cena na qual Babine se afasta em direcção a um horizonte carregado de solidão, uma espécie de Charlot que desaparece na paisagem enquanto a luz esmorece.

Roberto Merino Mercado

Porto 6/02/06

segunda-feira, janeiro 30, 2006



Michele Bachelet Presidente de Chile

Espero que no se sorprendan por estas letras en una página teatral.Pertenezco a la generación que vio los teatros incendiados, las bibliotecas incendiadas y las escuelas de teatro y universidades en Chile reprimidas.La dictadura se apropió del país y también de la facultad de nombrar los rectores que antiguamente eran elegidos democráticamente por la comunidad académica. Después de 18 años de Dictadura y después de tres gobiernos de la coalición gubernamental centro democrática, todos los esfuerzos han sido realizados para recuperar el tiempo perdido en la dictadura, volver a colocar a Chile en el Marco de las naciones democráticas, rescatar su prestigio como nación entre las organizaciones mundiales y gubernamentales, recuperar el tiempo perdido en la educación salud y seguridad social. En otras palabras volver a ser el país que fuimos, el país que se enorgullece de sus premios Nóbel de literatura, de su poesía, de su canto, de sus gentes y de su teatro.El Chile democrático murió el 11 de septiembre de 1973, en el palacio presidencial de La Moneda un hombre solo representó como en un escenario la tragedia de toda una nación, de esa tragedia vamos saliendo poco a poco, paso a paso recuperando las décadas perdidas y la esperanza tan solitaria como la única estrella que ondea nuestra bandera.

Roberto Merino Mercado

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Curso livre de Teatro



Inscrições a decorrer e com inicio a 31 de Janeiro de 2006

O Curso Superior de Teatro da Escola Superior Artística da ESAP promove este ano pela primeira vez um Curso Livre de Teatro com a duração de seis meses entre Janeiro e Julho, privilegiando as áreas de Historia do Teatro e Dramaturgia entre as vertentes teóricas e Interpretação e Voz nas áreas teórico práticas, aulas orientados pelos professores titulares do Curso Superior de Teatro sob a orientação do encenador e professor Roberto Merino. Um curso dirigido a todos os interessados em aprofundar ou iniciar conhecimentos no Teatro e na sua Historia, nos domínios da Voz e da Interpretação assim como na Dramaturgia.
Os interessados integrar-se-ão numa escola artística dinâmica com quase trinta anos de existência na zona histórica e Património Mundial da Humanidade, numa escola associada a UNESCO e num curso que, cada vez mas se projecta na comunidade, em festivais e em eventos ligados à área. Este é um convite dirigido ao Teatro e a Cultura. O curso realizará actividades culturais de visitas a museus e a assistência a espectáculos teatrais e ensaios gerais das diferentes companhias profissionais do porto assim como aos espectáculos dos Festivais Teatrais do Porto.
As aulas terão início no dia 31 de Janeiro com o custo mensal de 40 € por seis meses. Prevê-se um total de 115 horas lectivas e contempla a apresentação final pública de um pequeno espectáculo.Semanalmente as aulas decorrerão às terças e quintas-feiras das 18.00 às 20.30 horas, cada sessão dividida entre aulas teóricas (1 h) e práticas (1,30 h).

quinta-feira, dezembro 22, 2005

A heterogeneidade teatral portuguesa no século XVIII



O século XVIII é, por excelência, o século da «festa», das ruas enfeitadas por cenários para as grandes representações, fossem elas de teatro, fossem de procissões de Corpus Christi ou mesmo de autos-de-fé.
Lisboa é agora a verdadeira capital do reino. O monarca instalara-se definitivamente nas margens do Tejo e daí comandava um extenso império que se alargava pelos vários cantos do mundo. Lisboa fervilhava de gentes de várias cores e de várias classes, desde o miserável pedinte, ao fidalgo arruinado ou aprendiz, desde o simples operário ou vendedeira aos senhores e damas, satélites ou parasitas de uma corte que sustentava o fausto com as riquezas que não chegavam ao povo e que provinham tanto do comércio como do contrabando, o daqui e o de além-mar.
Antes da Restauração, já Lisboa se enfeitava para receber o monarca (Filipe III, de Portugal, em 1619), erguendo majestosos arcos de triunfo.
Também é Lisboa que assiste ao eclodir da Restauração em 1640, uma Lisboa que cresce, na medida inversamente proporcional ao resto do país. Após o período mais conturbado das lutas pela consolidação da independência, a nobreza volta a «poluir» com o seu fausto os salões da capital. D. João V (1689-1750), ascende ao trono em Janeiro de 1707.
Há que imitar, em tudo, o «bom gosto» da França e das grandes capitais europeias, mesmo que para tal não tenhamos os cofres a abarrotar, ou tenhamos que empenhar-nos.
«A cultura do tempo, nas suas mais diversas formas, vai fazer com que o frívolo e o maravilhoso possam manipular o puro entretenimento. A época pretende (...) com a utilização que vai fazer da festa, não interromper a vida com o jogo, mas antes teatralizar toda a existência. O poder político (tal como, em menor medida, a Igreja) vai superlativar essa atitude, colocando-a ao serviço da estabilização social, do controlo das mentalidades e da expansão da autoridade monárquica»[1].
O barroco assume proporções inauditas, as igrejas enchem-se com as talhas douradas nas capelas que os senhores mandam construir propositadamente para as suas famílias, à custa do ouro e depois dos diamantes que vieram do Brasil.
Aquando do comércio do Oriente e das riquezas que ele nos trouxe, perdemos a hipótese de desenvolver o país; a riqueza que agora vinha do Brasil era uma vez mais desperdiçada perdulariamente pelas mãos da megalomania e da exibição que enxameavam as cabeças dos possuidores do dinheiro. Os salões aristocráticos enchem-se de literatos, músicos, artistas, muitos deles de gosto duvidoso, enquanto sua majestade busca satisfazer a providência mediante a construção do monumental Convento de Mafra, vivendo entretanto nos Paços da Ribeira.
Mas as construções, que mesmo assim proliferavam, eram mais sumptuosas no interior que no exterior. A arquitectura do efémero é a grande imagem de marca da Lisboa setecentista, sobretudo no período joanino, portanto pré-terramoto, e para tal era necessário importar arquitectos e pintores que trouxessem até nós a arte que nunca fôramos capazes de desenvolver.
De facto, dois monarcas marcam de forma notável o século XVIII português: D. João V e D. José.
D. João V é já um exemplo do monarca déspota, mas igualmente aberto ao fausto e ao mecenato cultural. Embora — e há que reconhecê-lo — as circunstâncias económicas favoráveis estejam na origem directa da sua acção, esta pauta-se já pelo favorecimento — nem sempre claro — de intelectuais mais ou menos familiarizados com as novas ideias que o Iluminismo expandia. Alguns dos mais notáveis professores jesuítas vêm para Portugal por influência do monarca (ou dos seus mais directos colaboradores), ao mesmo tempo que envia bolseiros para o estrangeiro. Mas a acção de D. João V vai mais longe, favorecendo igualmente os oratorianos, com regalias antes atribuídas exclusivamente aos jesuítas, relaciona-se de forma muito estreita com nobres eivados já de ideais inovadores, como será o caso, entre outros, de Martinho de Mendonça de Pina e Proença.
Mas seria incorrecto atribuirmos exclusivamente ao monarca a responsabilidade por uma renovação que é resultante de toda uma plêiade de homens notáveis, fruto do seu tempo, como D. Francisco Xavier de Meneses, D. Luís da Cunha, Manuel de Azevedo Fortes, o médico judeu Jacob de Castro Sarmento (que acaba por ir trabalhar para Inglaterra!), o Pe. Bartolomeu de Gusmão, o da «Passarola» e seu irmão Alexandre de Gusmão, e tantos outros, mesmo jesuítas como António Cordeiro, Baltasar Teles ou Francisco Soares, estes ousando já contestar o «sacrossanto» Aristóteles.
Século, pois, de luta intelectual, de «agitação mental e espiritual, de polémicas consecutivas, de infiltrações do pensamento estrangeiro mais avançado, mas também de futilidade, de poesia artificial e entretenimentos pueris», no dizer de Banha de Andrade[2], de vacuidades e galanteria, de religiosidade beata de mão dada com o deboche, mas simultaneamente século de sublimação da Razão.
Século do Homem, obviamente das suas virtudes e incoerências. Legitimamente, pois, século de Ribeiro Sanches e de Verney, tempo de «luz» e do sonho, das novidades dum Robinson Crusoé ao imaginário gulliveriano ou à mordacidade de um Marivaux, tempo de Goldoni e de Arlequim «entre dois amos»: Aristóteles e Newton, com nítida vantagem para o segundo.
Século em que praticamente tudo é posto em causa: ética, religião, política, ensino, filosofia, ciência, e, para o final da centúria, a própria monarquia «divina» sofre os primeiros abalos. Porém, toda esta «onda» de reflexão e de difusão cultural é bem mais ampla além Pirenéus e o movimento inovador ou mesmo de contestação, tem de ser encarado em Portugal à escala sempre reduzida (e cronologicamente atrasada) do nosso país. Assim se percebe que os «estrangeirados» tenham, de facto, «vistas mais largas» e se são «pontas-de-lança» dum vanguardismo intelectual, são-no sobretudo em relação à anquilose ainda reinante nas esferas do saber lusitano. E por isso ainda, e também, todos eles mais ou menos vítimas do reaccionarismo de quantos teimam em passear a sua tacanhez pelos corredores bafientos duma Escolástica moribunda.
O verdadeiro intelectual português do século XVIII repelia, enojado, a mediocridade mental que ainda se pavoneava em muitos salões aristocráticos e burgueses da capital e procurava seguir o exemplo edificante das novas ideias da reforma intelectual de raiz cartesiana e newtoniana que Filósofos e Enciclopedistas se encarregavam de cultivar, discutir e difundir nos meios evoluídos da Europa setecentista[3].
Era esta, pois, a Lisboa onde coexistiam as diversas classes, sociais e mentais, que viria a acolher um «Judeu», os Árcades, mas também a ópera, feita por actores ou por bonifrates, bem como os resíduos do teatro do Siglo de Oro a par com as novas propostas de um teatro italiano ou francês.
A preocupação com a distinção classista chegava ao ponto de fomentar a redacção de regras de tratamento e de vestir, que embora viessem já de trás, assumiam agora proporções significativas. As «senhorias», os «excelentíssimos», os «reverendíssimos», as «senhorias ilustríssimas», integravam todo um código de «boas maneiras», obrigatório no linguajar aristocrático de uma fidalguia tão pedante como estúpida e pretensiosa. Qualquer evento, por mais natural ou particular que fosse, um casamento, um nascimento, um pedido de noivado, tudo eram pretextos para festas e banquetes, como o eram a simples ida à ópera, ao teatro, à tourada ou ao auto-de-fé, já para não falar dos passeios e das caçadas. O maneirismo das falas e dos gestos atingia o exagero do ridículo, porque cada um tinha em si a sensação permanente de que estava a ser alvo dos olhares alheios e, portanto, a imagem tinha não apenas de ser a melhor, mas cultivada com sumptuosidade.
Se esta era a realidade da corte, não o era menos no seio da aristocracia e da alta burguesia que procurava imitá-la. A aristocracia gravitando em volta dos movimentos do rei, dos seus familiares e ministros, a burguesia buscando a proximidade com os titulares da nobreza. E tudo valia, da mentira à intriga, para se insinuar nos meios sociais que se almejava atingir.
Era um século de ostentação sem suporte, como o era igualmente de contrastes e de oposições: às fronteiras sempre «apertadas» das censuras e dos «olheiros» inquisitoriais, do conservadorismo retrógrado das classes no poder, opunham-se os libertinos, os livres-pensadores, aqueles que ardentemente desejavam um mundo novo e mais consonante com o desenvolvimento filosófico, científico, literário e cultural. À religiosidade e ao misticismo, opunha-se igualmente a sensualidade, que muitas das vezes aparecia disfarçada sob as vestes austeras da clerezia. O mundo — também e sobretudo em Lisboa — é um palco por onde desfilam e representam as mais díspares personagens.
Havia literatura especializada para enformar todas estas vivências, desde os manuais de cortesia e civilidade aos da fala, aos do gesto, aos dos movimentos da dança, mas também escritos sobre os autores mais recomendados, sobre os músicos de eleição, sobre a moda e o trajo, sobre os penteados, os mobiliários e as decorações: era a sociedade dos jardins e das carruagens, dos espelhos, dos perfumes, da maquilhagem e das cabeleiras, mas também a da boémia, da parasitagem, dos vadios, das prostitutas, dos frades e das monjas em fugas (nem sempre clandestinas) para noitadas de amor, dos mendigos e dos chulos.
Os cegos e pedintes cantavam pelas ruas os poemas que vendiam em folhetos aos passantes e nas portas dos estabelecimentos, pendurados em fios, (daí a denominação de teatro de cordel), «a cavalo num barbante», na feliz expressão de Nicolau Tolentino de Almeida, exibiam-se papéis com entremezes, autos, comédias, farsas, tragédias, muitas de autores anónimos, outras resultantes de traduções ou adaptações de comédias e entremezes, outras ainda encomendadas pelos próprios impressores a autores que nesse género recolhiam o essencial para a sobrevivência do quotidiano e que desta forma atingiam um público mais vasto e menos instruído nas coisas da literatura. Mas, ao contrário do que possa pensar-se, foi este tipo de teatro o verdadeiro continuador da obra do Judeu.
Milhares de folhetos chegaram até hoje, mas infelizmente o chamado «teatro de cordel» está ainda por estudar na verdadeira riqueza que representa, tanto pela variedade temática como pela multiplicidade de estilos. Teatro de crítica, é por vezes tão contundente que os seus autores, alguns de inegável qualidade literária, tiveram de refugiar-se no anonimato, sob pena de estagiarem nos calabouços pombalinos ou, mais tarde, sob os esbirros de Pina Manique.
E há um pouco de tudo: da farsa à comédia, da tragédia ao melodrama, do auto ao entremez, as evocações históricas ou religiosas, os elogios dramáticos, os episódios romanceados a partir de situações burlescas ou dramáticas do quotidiano, em prosa como em verso. Mas também adaptações de autores famosos, com relevo para Molière, Goldoni, Metastásio, Alfieri e tantos outros.
Como escreveu Albino Forjaz de Sampaio, «teatro de cordel não é um género de teatro, é uma designação bibliográfica», e a prova podemos encontrá-la no precioso catálogo da Fundação Gulbenkian[4].
Dos muitos autores que, apesar de tudo, se conhecem, salienta-se o nome de José Daniel Rodrigues da Costa (1757-1832), autor que escreveu dezenas de peças. «Autor bom? Mau? Autor com êxito. Um dos muitos que forneceram ao teatro de então mais os entremezes do que as peças, um dos muitos que entretiveram o seu público com os disparates de uma técnica particularmente atenta às necessidades de um auditório»[5].
Era inevitável que pelo meio de toda esta «fauna» surgissem aqueles que se não deixavam encandear com os fogachos luminosos do esplendor e satirizassem o mundo que se lhes deparava em volta. Outros, porém, preferiram mesmo abandonar o país, que não lhes reconhecia o mérito (Verney, Jacob Sarmento), e servir cortes no estrangeiro, onde os seus conhecimentos e investigações eram não só aceites mas estimuladas, como aconteceu com Ribeiro Sanches.
Mas deixemos por ora esta paisagem e vejamos o que acontece no panorama literário português do século XVIII.
O passado não deixara nem grandes marcas nem grandes saudades. Afora um ou outro exemplo, nada de verdadeiramente inovador surgira no Portugal de Seiscentos. Assim, serão mais uma vez os modelos importados que irão determinar o aparecimento de alguns nomes na literatura portuguesa do século XVIII. Infelizmente, porém, no que ao teatro diz respeito, os exemplos hão-de escassear e não será ainda nesta centúria que um verdadeiro teatro nacional irá despontar em força, cerceado como foi, logo à nascença, o ímpeto e o génio criador de um António José da Silva.
No entanto, muito teatro foi representado em Portugal, e é neste século «que o estatuto do actor evolui até à sua reabilitação, em 1771, por um decreto do marquês de Pombal»[6]. Várias edificações foram erguidas para acolher o teatro, a ópera entra-nos pela porta dentro, com companhias estrangeiras que por cá passavam em digressão. Mas se muito se escreveu, bem pouca foi a qualidade que lhe deu a consistência capaz de garantir a perenidade da memória.
A Arcádia Lusitana, fundada em 1756, tinha entre os seus objectivos a veleidade de restaurar um verdadeiro teatro nacional que parecia ter acabado com o desaparecimento de Gil Vicente. Mas as suas intenções não ultrapassaram os estreitos limites da componente literária.
Com a Restauração, a influência do teatro espanhol tende a diluir-se e os melodramas italianos e o teatro clássico francês têm, de facto, públicos fiéis — eram a novidade e eram estrangeiros: Georges Dandin, de Molière, representou-se em Portugal logo em 1737, traduzido por Alexandre de Gusmão. Mas Racine, Corneille ou Voltaire também passeavam o seu talento dramático entre nós, através da tradução das suas obras. Isto não impedia, contudo, que alguns persistissem em ver o ideal do modelo teatral nos autores castelhanos como Calderón ou Lope de Vega, aliás, igualmente admirados noutros países, pese embora o facto de novos modelos se estarem ensaiando já então na França e na Inglaterra do tempo. Graça Rodrigues afirma mesmo que «... no século XVIII, e até que a abertura para a Europa se faz sentir com o Marquês de Pombal, sobretudo a partir de 1738, o Siglo de Oro espanhol teve repercussões profundas na produção literária portuguesa»[7]. Aliás, não é por acaso que ainda em 1739 o Marquês de Valença, D. Francisco de Portugal e Castro, se envolve numa polémica ao publicar o seu Discurso Apologético em Defesa do Teatro Espanhol.
António José da Silva «o Judeu» (1705-1739)
Filho de gente de ascendência judia (o pai era advogado e chamava-se João Mendes da Silva e a mãe Lourença Coutinho), o moço António José, nascido no Rio de Janeiro em 8 de Maio de 1705, teve de acompanhar os pais para Lisboa, enviados pela Inquisição, aí sendo encarcerados em 1712.
António José estudou em Lisboa e formou-se em Direito em Coimbra, com apenas 24 anos.
Os outros filhos do casal, Baltasar e André, também foram, como os pais, encarcerados e torturados nas masmorras inquisitoriais, vendo-se espoliados de todos os seus bens.
Ainda estudante (em 1726), António José é preso pela primeira vez, acusado de levar uma vida pouco confinante com as regras da moral embora já então ele se esforçasse por parecer um católico praticante, e é condenado com «pena de cárcere e hábito penitencial perpétuo», obrigado a «ser instruído nos mistérios da fé», mas logrando sair da cadeia após o auto-de-fé realizado em 13 de Outubro desse mesmo ano. Logo em 1729, sua mãe é novamente presa.
Dedica-se às letras e à advocacia, mas em 5 de Outubro de 1737 volta a ser detido juntamente com a mulher: é torturado e sentenciado à fogueira, tendo morrido num auto-de-fé em 18 de Novembro de 1739, com apenas 34 anos de idade. Deixa viúva a prima com quem casara, em 1734, de nome Leonor Maria de Carvalho. Sua mãe lograra também escapar à fogueira.
Curiosamente, fora queimado por ser «judeu» e não por ser o autor das operetas que conheciam estrondosos sucessos no Teatro do Bairro Alto, mas de que a Inquisição ignorava a verdadeira autoria, como defende um dos seus mais atentos estudiosos[8].
A sua obra, magistral pela concepção que não pelo volume, inicia-se logo em 1733 com A Vida do Grande D. Quixote de la Mancha e do Gordo Sancho Pança. No ano seguinte escreve Esopaida. Seguem-se então obras de inspiração greco-latina como Os Encantos de Medeia (1735), Anfitrião ou Júpiter e Alcmena e Labirinto de Creta, ambos de 1736. A sátira é uma constante na imaginação criadora do grande dramaturgo e a sociedade em que vive fornece-lhe temáticas de sobra. Não espanta, pois, que no ano de 1737 nos surja com Guerras do Alecrim e Manjerona, As Variedades de Proteu e o Precipício de Faetonte, esta já em 1738, que foi a sua última produção.
A sua obra foi postumamente reunida pelo seu amigo e editor Francisco Luís Ameno, sob o título Teatro Cómico Português.
Todas estas óperas joco-sérias, como ele as classificou, foram representadas no alfacinha Teatro do Bairro Alto, deliciando as gentes que de vários estratos sociais ali acorriam para se verem ao espelho e deliciarem-se com as grotescas caricaturas das suas próprias taras e manias[9].
Tentando inovar, rejeita os modelos estéticos clássicos, ridiculariza a sociedade do seu tempo mas também os padrões clássicos da estética do século que o precedeu e que, apesar de tudo, ainda era bastante cultuada nos saraus aristocráticos. Desrespeitou, por isso, e intencionalmente, os padrões aristotélicos, não se restringindo às estanques leis das unidades de tempo e lugar. Na verdade, o seu teatro procurava sobretudo desmitificar a produção teatral e criar um verdadeiro teatro português. Se não foi mais longe, tal ficou a dever-se tanto ao barroquismo que enformava os gostos da época como à curta existência de que desfrutou.
Com uma vida curta, deixou-nos mesmo assim uma obra que prenunciava já a magnitude do seu talento se a morte o não tivesse ceifado cruelmente e tão cedo. Camilo Castelo Branco, sensibilizado pelo seu sofrimento, haveria de dedicar-lhe um dos seus romances históricos, mas caberia já a um dramaturgo do século XX, Bernardo Santareno, a glória de colocar em teatro a biografia de António José da Silva, na peça que intitulou precisamente O Judeu e na qual alcança um dos mais elevados momentos da dramaturgia portuguesa de todos os tempos.

[1] — BEBIANO, Rui — D. João V poder e espectáculo. Lisboa: Livraria Estante, 1987, p. 47.
[2] — ANDRADE, António Alberto Banha de — Contributos para a História da Mentalidade Pedagógica Portuguesa. Lisboa: INIC, (1982), p. 248.
[3] — V. a propósito, PEIXOTO, Fernando — Luís António Verney. Entre a cruz e a caldeirinha.», in História. Ano XV, n.º 161, Fevereiro de 1993, Lisboa: Projornal, p. 76 – 83.
[4]Literatura de Cordel. Catálogo Geral V, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1970.
[5] — Prefácio à obra de COSTA, José Daniel Rodrigues da — 6 Entremezes de Cordel. Lisboa: Editorial Estampa - Seara Nova, 1973, p. 17.
[6] — REBELLO, Luiz Francisco — Breve História do Teatro Português. p. 76.
[7] — RODRIGUES, Graça Almeida — Literatura e Sociedade na obra de Frei Lucas de Santa Catarina (1660-1740). Lisboa: INCM, 1983, p. 82.
[8] — AZEVEDO, Lúcio de — «O poeta António José da Silva e a Inquisição», in Novas Epanáforas – Estudos de história e literatura. Lisboa: 1932.
[9] — José de Oliveira BARATA discorda que as plateias do Teatro do Bairro Alto incluíssem as classes baixas, com base no argumento de que ali era o local escolhido pelos nobres para «construírem os seus palácios», não o considerando, por isso, um «comediógrafo popular». Cf. História do Teatro Português. p. 226.
Fernando Peixoto

As Abelhas e as Vespas na colmeia do Teatro - Fernando Peixoto


(Comunicação proferida em 9 de Janeiro de 2003, na Mesa-Redonda «Teatro e Ensino», no Mercado de Ferreira Borges, no decurso das comemorações dos 20 anos da ESAP/CESAP)

Há o mel e a cera; há as abelhas e as vespas. Uns espetam para estimular a produção; outros para destruir o que foi produzido. Assim acontece na colmeia do teatro; assim se passa na comédia da vida.
Sarah Kane pertencia à geração dos filhos de Margareth Tatcher e suicidou-se aos 28 anos. Miguel Rovisco era o fruto da geração dos anos 60 e pôs termo à vida aos 27. Será que alguém sabe, verdadeiramente porquê?

Um e outro, contudo, deixaram-nos obras não só importantes como promissoras do que poderiam ainda criar se, para tão vasto talento, não tivesse sido tão curta a vida.
Mas também no seio do mundo teatral há os Iagos, despudorados, ambiciosos, para quem tudo vale desde que «apareçam» e logrem um reconhecimento oficial e público que os seus méritos quase nunca justificam: são eles que se colam aos poderes mutáveis, estão sempre disponíveis para a metamorfose e como vespas insaciáveis sugam o néctar dos cifrões que a bajulação coloca ao seu dispor. Outros, corporizando Antígonas ou rebelando-se como Prometeu, cientes que o dever é mais importante que o conformismo, são as abelhas diligentes, não sustêm a labuta permanente, convictos do mel que é imprescindível para combater os amargos sabores da vida, e num colectivo solidário constroem os favos de que se alimenta o conhecimento.
Os primeiros têm amplos e sinuosos bastidores, bunkers onde se acoitam e dos quais desferem os seus ataques, dispõem de sofisticada maquinaria, espaços de luxo, gabinetes pessoais, direito de antena e outras «mordomias» que o poder do Político lhes prodigaliza. Os segundos são os «Sem-Terra», os «Sem-Abrigo», os despojados, capazes de ultrapassarem as maiores dificuldades pelo recurso à imaginação que só uma convicção profundamente solidária alimenta.
De onde vem e porquê esta abissal diferença, esta ancestral discriminação?
Há dias fui a um leilão: gente endinheirada disputava quadros que queria levar para casa por milhares de contos; alguns batiam-se por adquirir uma escultura; outros ofereciam lances inimagináveis por pequenas peças de cerâmica. Ninguém adquiriu uma colecção de primeiras edições de peças de teatro de um conhecido autor português que custava cerca de 200 euros!
Será que alguém sabe, verdadeiramente porquê?
O Teatro é uma criação que usa as palavras, as paixões e os corpos como arma.
Se as palavras, no dizer de Stendhal «são sempre uma força que procuramos fora de nós», e Eurípides aconselhava mesmo «fala se estás na posse de palavras mais fortes do que o silêncio, senão mantém-te calado», então o Teatro, que as utiliza mais que ninguém, é a arte que mais estilhaça os espelhos do silêncio, é o canhão que dispara contra os muros do medo e do conformismo, é a trovoada que rasga as veias das fontes do sonho com que se alimenta o Futuro.
Mas o Teatro não existiria se lhe fosse impedido respirar a aragem das paixões, porque «as paixões ensinaram a razão aos homens», como escreveu William Shakespeare, n’A Tempestade, antecipando de alguns séculos as conclusões científicas de António Damásio.
Esta arte, que Téspis divulgou na sua itinerância pelos caminhos gregos da descoberta do Homem, constitui um corpo complexo, que não vive apenas da pele que o reveste (o cenário), dos ossos que o sustêm (os adereços), dos nervos que o impelem (as emoções), mas do sopro de Vida que as mulheres e os homens que o fazem respiram, no quotidiano das ruas, nos palcos, nos bastidores, em qualquer local onde haja seres humanos dispostos ao diálogo, à reinvenção do real e à recriação do mundo que os envolve.
O criador teatral sabe bem da importância do seu acto e, muitas vezes, dos perigos que corre. Mas insiste, porque «criar é matar a morte», como dizia Romain Rolland. E, a propósito da criação, o grande Jean Genet sabia muito bem o que dizia quando afirmou que «criar não é um jogo mais ou menos frívolo. O criador meteu-se numa aventura terrível que é a de assumir ele próprio, até ao fim, os perigos que enfrentam as suas criações».
Por tudo isto o Teatro é perigoso: é que ele aponta, grita, mostra, apela, denuncia, esclarece, descobre, desafia, inventa e renova, transforma-se noite após noite porque não há dois espectáculos iguais, experimenta, interroga, agride e abraça, cospe e beija: é a Vida, em suma, no seu continuum dialéctico.
Louis Jouvet, definiu-o como uma colmeia «onde se transforma o mel do visível para fazer dele o invisível». E desse invisível da Vida se alimenta o sonho, como maravilhosamente nos fez compreender Calderón de la Barca.
A teimosia do sonho e a capacidade de materializá-lo, deverão constituir sempre o horizonte perseguido pelos criadores teatrais: os autores, os actores, os encenadores e todos quantos constituem o exército indómito dos obreiros do combate pela dignificação do Teatro. Por isso, é frequente depararmos com aqueles cuja paixão pela arte dramática supera as mais incríveis limitações. E frequente é também ver autores e actores transformados em Pigmaleões apaixonados pelas Galateias-personagens que eles próprios esculpiram sobre o palco.
Por tudo isto o Teatro foi sempre uma espécie em vias de extinção, mas que vem resistindo porque enquanto houver um homem e uma mulher que se recusam a ser fósseis — e ser fóssil, aqui, significa deixar de sonhar — o teatro há-de levantar-se sempre, como fénix renascida das cinzas em que os inquisidores tentam «assá-lo» há milénios.
É que a imortalidade da criação e da arte teatral provoca ainda nas classes possidentes um medo pavoroso. E poucas artes possuem, como o Teatro, a possibilidade de despertar as consciências.
Num estudo recente, que serviu de base a Vítor Rodrigues para a sua dissertação de doutoramento em Psicologia, aquele investigador chegou à conclusão de que os textos de Gil Vicente são os preferidos dos alunos do 10.º ano de Português B, a que se seguiam Os Lusíadas. Apesar destes resultados, já a partir de Setembro deste ano (2003), estes textos vão ser retirados do programa do 10º ano, como consequência da revisão curricular!
A notícia veio no Público de 3 de Janeiro deste ano e entre as várias conclusões a que chegou aquele psicoterapeuta, salienta-se a de que os alunos manifestam um maior grau de atenção frente a um docente que lhes fala de forma clara, melodiosa, expressiva, aconselhando mesmo os docentes a recorrerem a «uma linguagem mais metafórica e emocional» como forma de potenciar uma maior motivação dos alunos.
Mas será isto que acontece na generalidade dos casos? Há, por acaso, formação a este nível, dada aos docentes nas célebres cadeiras pedagógicas das Faculdades que formam os futuros professores? Sabem eles colocar a voz? Utilizam o rosto, as mãos, o corpo, como complementos expressivos?
Formam-se professores de Letras e de Ciências sem a mínima preocupação de os preparar para os difíceis percursos da comunicação oral, e ignora-se mesmo a enorme importância da comunicação corporal, como se isso fosse matéria exclusiva para uns pobres-diabos que não têm que fazer e por isso mesmo se dedicam ao estudo incipiente do Teatro em alguns (poucos) cursos das ESE’s.
Mesmo ao nível do ensino básico, faixa etária em que as crianças carecem de mecanismos diversificados de descoberta que a expressão dramática potencia, como a experiência no-lo tem provado, o recurso àquela forma de expressão tem sido sistematicamente ignorada.
Um exemplo, apenas. Numa escola do 1º ciclo do ensino básico de Gaia, foi dado a ler aos alunos um texto sobre a lenda de Gaia. Dos que o leram — e não foram muitos — poucos o entenderam e nenhum se entusiasmou particularmente com a lenda.
Fomos convidado a contá-la oralmente a um grupo de cerca de centena e meia de crianças, algumas portadoras de diferentes níveis de deficiência motora e intelectual. A estratégia que adoptámos foi a de reunir todas as crianças num recreio térreo e distribuí-las de acordo com as suas preferências: uns eram os cristãos, outros os mouros, alguns reis, outros rainhas ou princesas, cavaleiros, etc. Introduzimos lentamente pequenas porções da história que eles iam mimando. A cena da batalha entre mouros e cristãos, com o rapto da princesa Gaia, constituía o desfecho da lenda. Todos as crianças se envolveram numa «luta» coreográfica, na qual as espadas eram os próprios braços com os dedos indicadores esticados. Um ligeiro toque no colega bastava para simular a sua «morte».
O resultado foi verdadeiramente entusiástico. Durante dias aquele «jogo» foi não só o tema das conversas como serviu de pretexto para composições escritas, desenhos e pinturas. E, curiosamente, muitas quiseram ler posteriormente aquela mesma lenda numa versão que existe em banda desenhada.
É certo que os planos curriculares dos alunos do 1.º ciclo contemplam espaços para as expressões artísticas como a educação musical, plástica ou dramática. Mas quantos docentes estão habilitados a leccioná-las? Nos ciclos seguintes o panorama não é mais animador.
O teatro, pela versatilidade dos meios que emprega, pelos recursos de que se serve, pela abrangência cultural que suscita, constitui — quanto a nós — o veículo privilegiado de acesso ao conhecimento pela via do lúdico. Ele influi e exercita as capacidades motoras, organiza o raciocínio lógico, fortalece a «musculatura» da memória, melhora a articulação das palavras e orienta as necessidades respiratórias; serve-se da Literatura, da História, da Filosofia, da Música, das leis da Física, das Artes Plásticas, utiliza os recursos do meio e provoca a imaginação; questiona mais do que afirma, bebe profundamente nas águas da Psicologia, cria tensões e promove solidariedades, em suma: provoca um amplo e harmónico desenvolvimento humano.
Apesar de tudo isto e do muito mais que poderia ainda acrescentar-se, continua a ser o parente pobre do Ensino.
Será por acaso? Não haverá por aqui algum maquiavelismo escondido com o «príncipe» de fora? Será por ignorância ou ingenuidade dos políticos que o desenvolvimento do teatro se processa sempre de forma lenta e em contra-corrente?

Sabiam que o Teatro é irmão do Político e quase nunca estão de boas relações? Porque, filhos ambos do mesmo Pai (o Homem) e da mesma Mãe (a Natureza Humana), ambos intervêm no quotidiano e os seus objectivos entram frequentemente em conflito.
O Político sabe perfeitamente do grande amor que o Teatro tem pela Liberdade e como quer, casado com ela, despertar os homens e o mundo. O Político materializa a ancestral vingança de Zeus contra Prometeu: o Político, embebido nas teias eróticas da Ambição, busca uma relação promíscua e de conveniência que lhe permita decidir, juntamente com a sedutora, da vida e do destino dos humanos, sem ser perturbado pelo fogo do conhecimento que o Teatro pode levar às massas.
Ao longo dos séculos temos assistido a sistemáticas tentativas de fratricídio, com o Político (vestindo trajos de tirano ou de religioso) a tentar amordaçar ou mesmo apunhalar o irmão Teatro. Primeiro na Grécia, onde se tentou calar os dramaturgos; assim foi em Roma, porque Nero não logrou ser o actor de fama que ambicionava; assim foi, durante séculos, nos primórdios do cristianismo. Mas, viajando de carroça ao longo dos tempos, mais tarde entrando de carruagem nos palácios dos mecenas e dos próprios reis, hoje viajando de carro, de comboio ou de avião, tendo já um lugar cativo na própria NET, o Teatro sobreviveu sempre.
Crucificado e recrucificado, o Teatro soube sempre reerguer-se do túmulo onde o Político pretendeu sepultá-lo e de cada vez partiu com uma nova mensagem, com um novo sorriso, com uma nova vontade, com uma nova esperança, com um novo sonho, com um novo projecto de Futuro.
Num palco convencional ou numa barraca improvisada, na arena de uma praça ou no espaço estreito de uma rua, no interior de um supermercado ou num recanto de um qualquer centro comercial, o Teatro acontece, pode acontecer, e em todas essas ocasiões é o Homem, o Homem autêntico que se procura a si mesmo para construir o seu próprio itinerário, para criar o seu próprio Futuro. Aí reside a sua força. Aí habita a verdadeira Fé que só os crentes da religião teatral cultivam: um Amanhã diferente com um Homem diferente. Porque, como escreveu Elsa Triolet, «o futuro não é uma melhoria do presente. É outra coisa».
«un pueblo que no ayuda y no fomenta su teatro, si no está muerto, está moribundo». — FEDERICO GARCÍA LORCA
Rompamos o silêncio! Apedrejemos a ignorância! Expulsemos o oportunismo! Matemos a morte! Façamos Teatro!

quarta-feira, dezembro 21, 2005

«CONTACTO» com Lorca e Bernarda Alba




Dizer que Federico García Lorca foi um inovador é pouco, restritivo e pouco significante; dizer apenas que foi importante a sua obra poética, é igualmente — dizendo a verdade — limitá-la. Tratando-se de um génio, Lorca abarcou os mais variados géneros artísticos: foi escritor, dramaturgo, poeta, músico, artista plástico, fazendo convergir em verdadeiras obras de arte as imensas capacidades artísticas que fizeram dele uma das mais emblemáticas figuras da cultura ocidental do século XX.
Falar do seu enorme contributo como homem e artista na luta pela liberdade é tentar uma aproximação ao real, mas pouco mais do que isso, pois Lorca foi tudo isso e muito mais do que isso. E mesmo hoje, a cerca de setenta anos de distância, podemos ainda aspirar o aroma e a frescura das suas propostas estéticas. A esta distância, ainda sentimos na boca o sabor amargo da revolta, face à cobardia que pôs termo a uma vida em pleno viço criativo.
Autor de obras que se imortalizaram na História do Teatro do século XX, seria difícil dizermos, como alguns, que a sua peça A Casa de Bernarda Alba é a sua obra-prima. Mas que está no patamar mais alto da sua criação, isso parece-nos inteiramente justificável.
Em 1936 a Frente Popular vence as eleições em Espanha. Federico lê para os amigos La Casa de Bernarda Alba. Já não assistirá à sua representação. A estreia verificar-se-á nove anos depois, em Buenos Aires.
Verdadeira tragédia do silêncio, A Casa de Bernarda Alba é por muitos considerada a maior obra da dramaturgia lorquiana.
Bernarda encarna as duas forças complementares da repressão: a Ordem e o Poder. Uma e outro impõem condutas de rigor insuportáveis a quem acha que tem o direito a ser e a existir. Bernarda nega e nega-se a si mesma. Outra força irrompe no conflito: o Sexo. O isolamento e a incomunicabilidade são o preço da negação do individual e da liberdade que o instinto sexual materializa. A tirania, a loucura, o suicídio parecem ser as únicas hipóteses de vida, uma vida que acaba por conduzir à morte, extremo de afirmação para uma revolta já insuportável. Mas a Morte é — continua a ser — a inevitabilidade, a trincheira que defende os valores de uma moral glacial e cruel e por isso o silêncio se impõe no final, quando Bernarda grita: «La hija menor de Bernarda Alba há muerto virgen. Me habéis oído? Silencio, silencio, he dicho! Silencio!».
Consciente do momento difícil que a sua pátria atravessa, Lorca parte para Granada e desabafa: «en este momento dramático del mundo, el artista debe llorar y reír con su pueblo. Hay que dejar el ramo de azucenas y meterse en el fango hasta la cintura para ayudar a los que buscan las azucenas». A tragédia de Bernarda Alba encarna esta forma de estar e de sentir do seu povo
[1], mesmo quando se diz que não havia no poeta a intenção política da denúncia ao escrever esta peça[2].
A verdade é que o ambiente político extremava-se aceleradamente. Em 13 de Julho de 1936, o líder do partido monárquico «Renovación Española», José Calvo Sotelo, é assassinado e grande parte do exército levanta-se em armas. Desrespeitando os resultados da eleição democrática, em 17 de Julho desse ano a Falange desencadeia a guerra civil.
Lorca estava completamente envolvido na trincheira popular. Uma denúncia anónima leva à sua captura. É acusado de comunista e fuzilado pelos falangistas em 19 de Agosto de 1936.
«Morra a inteligência! Viva a Morte!», gritavam aqueles que não suportavam escutar palavras como Liberdade, Poesia, Teatro, Cultura, Povo, interrompendo um discurso de Miguel de Unamuno, então reitor da Universidade de Salamanca, também ele vítima da crueldade da guerra civil, morrendo pouco depois, só e prisioneiro na sua própria residência.
Mataram Federico, mas a sua obra permanece viva até hoje. E, provavelmente pelos séculos adiante, as suas palavras continuarão a soar num barranco da Sierra Nevada, como sinos de liberdade, como um eco que se espalha pelos ares, impelido pelo vento oeste:
«... pero que todos sepan que no he muerto; que hay un establo de oro en mis labios; que soy el pequeño amigo del viento Oeste; que soy la sombra inmensa de mis lágrimas ...»
Quiseram matar o Poeta: mas da terra fertilizada pelo seu sangue mártir nasceu um Mito: Federico García Lorca está vivo e o Teatro saúda-o! Porque
«el teatro es la poesia que se levanta del libro y se hace humana».
Ao longo de toda a sua obra, Lorca irá opor, numa constante e incontornável dicotomia, a Opressão e a Liberdade, uma e outra assumindo as mais diversas formas, sem que necessite de expurgar dos conteúdos o profundo lirismo que sempre acompanhou os seus trabalhos. Assim alcança a rara beleza de integrar no conflito a fusão harmónica da poesia com o drama, demonstrando uma capacidade verdadeiramente inigualável que só estava ao alcance do seu génio ímpar.
Para Lorca, a arte teatral constituía uma «escuela de llanto y de risa y una tribuna libre donde los hombres pueden poner en evidencia morales viejas o equivocas y explicar con ejemplos vivos normas eternas del corazón y del sentimiento del hombre. Un pueblo que no ayuda y no fomenta su teatro, si no está muerto, está moribundo; como el teatro que no recoge el latido social, el latido histórico, el drama de sus gentes y el color genuino de su paisage y de su espíritu, con risa o con lágrimas, no tiene derecho a llamarse teatro, sino sala de juego o sitio para hacer esa horrible cosa que se llama matar el tiempo».
Pôr em evidência velhas morais, eis o que sobressai nesta como noutra peças. E se hoje sabemos que Bernarda Alba existiu e pertencia a uma família de Vallederrubio (antiga Asquerosa) onde os pais de Federico possuíam uma propriedade e onde o dramaturgo teria mesmo conhecido aquela família de mulheres (daí o subtítulo que deu à peça, de «Drama de las mujeres en los pueblos de España»)
[3], parece que pretendeu aproveitar aquele exemplo como «intención de un documento fotográfico» como então escreveu, embora consideremos que o seu objectivo mais amplo seria o de aproveitar o tema para falar do universal dilema da repressão, fazendo convergir aqui as forças de oposição irreconciliável, personificadas na autoridade de Bernarda e na ânsia de liberdade das filhas; no instinto de poder da mãe, absoluto e castrador e no instinto sexual das filhas, que desponta na proporção directa da repressão materna; autoridade versus liberdade, moral conservadora versus sexualidade assumida, eis os binómios em confronto[4].
E é precisamente aqui que a leitura da Companhia «Contacto» de Ovar, pela mão do encenador Ramos Costa nos questiona enquanto espectador.
À primeira vista poderíamos pensar que a «leitura» que o encenador faz da peça, sobretudo no seu final (no original lorquiano a filha mata-se, enquanto Ramos Costa finaliza com a filha disparando sobre a mãe), desvirtua o sentido de Lorca; meditando um pouco mais, encontramos uma lógica que a enjenação acaba por explicar com clarividência.
Lorca nunca chegou a ver a peça representada nem mesmo teve tempo para mudar os nomes das personagens (como habitualmente fazia, e que por ter sido assassinado não chegou a esse «cuidado»); caso tivesse vivido o suficiente para assistir à barbaridade do saldo da Guerra Civil espanhola, Lorca teria mantido aquele final? Nunca o saberemos, mas talvez Ramos Costa não «escandalizasse» o autor, ao pretender ― como o fez ― assumir a «morte» da repressão através da acção da filha disparando sobre a mãe. Há ainda a questão de poder perguntar-se se não é legítimo ao encenador fazer a «leitura» de um texto tendo em conta a mensagem que pretende vincular com o seu espectáculo (porque montar um texto dramático é construir um espectáculo).
Para nós, essa legitimidade é inquestionável, uma vez que o texto é sempre o PRETEXTO para a montagem do espectáculo teatral.
Há ainda que sublinhar outros aspectos desta realização da CONTACTO.
Ao nível do suporte sonoro, pareceu-nos numa primeira reflexão que deveria ter-se privilegiado mais a «cor» da música andaluza. Mas posteriormente achámos que na realidade o drama de Bernarda não é apenas espanholm mas universal e alguns casos semelhantes conhecemos noutras paragens, incluindo o interior do nosso país.
Cenograficamente bem construído, este espectáculo releva uma montagem que prima pela simplicidade de meios e sobretudo pela carga simbólica dos objectos que nele têm «significado» e por momentos recordámos mesmo algumas propostas de Meierhold, cônscios de que somente um ou outro pormenor estabelece essa coincidência. Por isso atrevemo-nos a considerar que se encontra na mais-valia da experiência curricular do encenador a explicação para o recurso tão feliz a elementos de grande simplicidade, estabelecendo uma feliz concordância entre o natural e o simbólico.
Uma nota final para a interpretação que sabemos ser sempre difícil para quem ousa montar um trabalho com estas exigências: sinceramente, não tínhamos grandes expectativas quanto à capacidade do elenco, sobretudo porque a carga emotiva e psicológica que deveria ser-nos transmitida pelos actores não era acessível à maioria dos actores e actrizes do teatro de amadores. E aqui fomos surpreendidos com belíssimas actuações que verdadeiramente nos deixaram preso durante todo o espectáculo. E sem querermos evidenciar nenhum deles em especial, não podemos deixar de realçar a MAGNÍFICA (porque exigente e difícil) interpretação da personagem Maria Josefa, mãe de Bernarda, a cargo de Conceição Gonçalves. Do corpo à voz, da alegria de representar à capacidade de reflectir-nos uma mulher idosa coexistindo livre e sonhadora no meio da opressão autoritária, Conceição Gonçalves soube arrancar da plateia aplausos prolongados e inteiramente merecidos.
Concluindo: a CONTACTO tem em cena um espectáculo invejável de qualidade e de seriedade, digno dos seus já sólidos pergaminhos, e pena é que esta gente continue a trabalhar denodadamente em prol do Teatro, sem os meios que tantos auferem com muito menos qualidade e muito menor empenho.

FERNANDO PEIXOTO
(Publicado em 16 de Junho de 2005 no Tribuna Press (Ovar) de 16 de Junho de 2005)
[1] ― Alberto del Monte ― «Il realismo di La Casa de Bernarda Alba», Belfagor, XX (Março de 1965), págs. 130-148.
[2] ― «Estas tentativas de ver a situação espanhola reflectida na obra, por muito lógicas ou naturais que sejam, não nos convencem» (tradução nossa), escreveram Allen Josephs e Juan Caballero na Introdução a Federico García Lorca ― La Casa de Bernarda Alba. Madrid, 29ª ed., Ediciones Cátedra, 2002, p. 95.
[3] ― Cf. Claude Couffon ― Granada y García Lorca. Buenos Aires: Losada, 1967, p. 33.
[4] ― Vale a pena ler o capítulo sobre Lorca, essencialmente sobre esta peça, de Francisco Ruiz Ramón ― Historia del Teatro Español siglo XX. Madrid: Cátedra, 1997, págs. 207-209.