
Fernando Peixoto em entrevista ao Meia-Hora, publicada no Dia Mundial do Teatro (27/03/ 2008)
Teatro em Portugal foi sempre “parente pobre”
O investigador Fernando Peixoto explica circunstâncias históricas e evoca valor mundial dos dramaturgos nacionais.
Mestre em História, investigador, dramaturgo, encenador e professor na Escola Superior Artística do Porto, Fernando Peixoto tem várias obras publicadas nos domínios da História e do Teatro, entre as quais História do Teatro no Mundo e História do Teatro Europeu.
Foi sensivelmente no início dos anos 70 que começou a dedicar-se a estas temáticas, destacando entre os seus estudos “a constatação que temos, ao longo da nossa história teatral, de alguns dos melhores dramaturgos mundiais [no contexto das suas épocas]: Gil Vicente, Almeida Garrett, Raul Brandão, Luiz Francisco Rebello e Bernardo Santareno”.
Em entrevista ao Meia Hora, Fernando Peixoto não deixou, porém, de acrescentar uma outra evidência, segundo confessa, “bem dolorosa”. Destaca “a pouca importância que ainda hoje se dá ao teatro feito em Portugal e em português. Companhias, autores, actores, encenadores são muitas vezes melhor reconhecidos no estrangeiro”.
Uma situação que não é nova se se levar em consideração o facto de, no País, o teatro ter sido sempre aquilo que considera “um parente pobre”.
O poder deve convencer-se de que não pode estar divorciado do teatro
Asas cortadas. “Reconhecem-se, no entanto, alguns períodos importantes, como o séculoXVI, com GilVicente e seus seguidores, bem como os clássicos [António Ferreira, Sá de Miranda, Camões...]. Mas em1536 estabelecia-se a Inquisição e o teatro perderia muitas das asas que pudesse ter”, continua Fernando Peixoto, segundo o qual “foi preciso esperar pelo triunfo liberal para que Garrett se encarregasse de refundar o teatro português, conferindo-lhe uma dimensão como ele nunca conhecera, quer em termos de quantidade [autores e obras] quer de qualidade”.
Não obstante, e como os poderes em Portugal nunca se mostraram particularmente favoráveis às artes dramáticas, “o teatro acabaria por nunca se desenvolver como noutros países”. Com o Estado Novo, voltaria a censura e as medidas repressivas, sobrevivendo“ com custos imensos um teatro relativamente inócuo e a revista à portuguesa”.
Com o 25 de Abril, despontaram autores, companhias e encenadores, mas, defende ainda o autor, “é necessário que o poder se convença de que não pode estar divorciado do fenómeno teatral nem encará-lo como mero veículo de lucro comercial”.
